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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Invictus e o Apartheid


“Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
(…)
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul”

- Invictus, William Ernest Henley

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De um lado negros, de outro, os brancos. Por décadas a África do sul sofreu com as leis do Apartheid. Negros eram desconsiderados enquanto cidadãos e para eles era proibido até mesmo freqüentar certas ruas, bairros e interagir com brancos. Ao assistir INVICTUS, novo filme de Clint Eastwood, nós vemos um momento crucial da História do país africano, a libertação de Nelson Mandela e a formação de uma nação unificada.

Os anos anteriores ao fim do Apartheid foram duros e intolerantes. Lembro de histórias absurdas de como dentro do país acreditava-se que existia razão no regime. Meu pai, por exemplo, viajou por aquelas bandas nos anos 80 e, dizia ele, que a qualquer momento um estrangeiro desavisado poderia ser espancado por entrar sem querer em alguma área própria para brancos ou negros. Isso sem contar os indianos que vivem por lá.

O tempo, no entanto, passou. O absurdo foi vencido com muita luta e paciência. Em 1990, o então presidente de Klerk acaba com o Apartheid. Logo após, Nelson Mandela, figura emblemática na luta contra a segregação é liberto e quatro anos mais tarde é eleito presidente da República sulafricana. No entanto, os males do Apartheid não terminaram neste momento. A nação ainda estava dividida. O esforço por uma política e um governo realmente democrático e multiracial estava apenas engatinhando.

É com esse contexto que se desenrola a história de INVICTUS. O Rugby era tradicionalmente um esporte praticado pela elite branca, enquanto o futebol pela população negra das mais variadas etnias. Nelson Mandela via na iminente copa do mundo de Rugby na Africa do Sul em 1995 uma oportunidade de ouro de unir uma nação que sempre caminhou dividida pela intolerância do Apartheid. Ele enxergou uma forma de integrar a elite branca a atual tendência de governo da CNA (Congresso Nacional Africano) e assim procedeu, mesmo que isso fosse um risco para sua imagem como presidente.

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Sob o slogan de um time, uma nação, Mandela traçou sua estratégia de tolerância e política multiracial. No filme de Clint Eastwood isso fica bem nítido. O diretor coloca toda a tensão existente em um governo negro e popular desacreditado por uma elite branca que ainda acredita em sua supremacia racial sobre os negros. O desenrolar da trama coloca a inspiração de Mandela aliada ao espírito de luta e superação dos Springboks, a seleção nacional de Rugby, liderados por seu capitão François Pienaar. O resultado é a vitória da união e da tolerância.

Tecnicamente, o filme comete alguns pequenos erros referentes ao período e ao desenrolar das regras do Rugby. Mas nada que abale a trama. Muito pelo contrário, a história vibrante de como um time de Rugby conseguiu superar-se e verdadeiramente representar uma nação que acima de tudo precisava se unir é comovente. Faz acreditar no poder da tolerância, no poder da união e da democracia como fator agregador para se chegar a uma justiça social.

Neste ano de 2010, nós teremos outra copa do mundo na África do Sul. Desta vez do “esporte dos negros”, o futebol. Se depender dos esforços de Mandela em sua vida e da política de tolerância, o espetáculo promete integrar tanto quanto a ascensão dos Springboks em 1995. Que as cores da África do Sul cada vez mais caminhem para a união e que o Apartheid seja uma vergonhosa cicatriz nos embates humanos a ser lembrada e superada da mesma forma que Mandela fez com os Springboks quinze anos atrás.

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Nelson Mandela cumprimenta o capitão da seleção de Rugby François Pienaar na final da copa do mundo de 1995 na África do Sul.