sexta-feira, 9 de abril de 2010

Esquizofrenia em The Office




The Office começa primoroso no seu realismo: o tédio das horas que não passam, a atividade sem significado pessoal nenhum, os sonhos, as tensões pessoais, a atenção voltada para as menores e mais simplórias coisas para poder respirar fora do trabalho (um grampo, uma planta, o movimento do logo no descanso de tela). É a empresa e a vida, digamos assim, de uma forma total. E por isso tem esse sucesso de fazer você imergir completamente na Dundler Mifflin, onde os heróis trabalham vendendo papéis, e imergir dentro da vida deles também. Aquelas pessoas existem de verdade, e você provavelmente é uma delas, assim como aquele escritório, que deve ser o seu local de trabalho. Não à toa, o seriado é como um reality show (apesar de também contraditoriamente não o ser!) capaz de enganar os mais distraídos, que estão vendo na verdade uma ficção: tem a câmera sozinha com os personagens, colhendo seus depoimentos; a câmera recebendo seus olhares enquanto fazem qualquer coisa, denunciando a consciência de estarem sendo filmados; e a câmera que filma de longe, escondida, na brecha, sem nenhuma ciência dos protagonistas.

É uma comédia escandalosamente hilariante, boba, besta, mas tem espaço pro choro da recepcionista sem grandes perspectivas que pegou a si mesma no ridículo de dizer que seu sonho era uma casa com varanda, igual a uma que viu quando era criança; pro desabafo do vendedor que não quer mais trabalhar ali, mas que não tem pra onde ir; pras sutilezas da administração de uma paixão reprimida; pro terror que é ter um emprego em uma empresa que anda fazendo cortes; pra falta de pirú da mulher histérica; pro jogo com a autoridade do patrão; pra dança que a filial tem que fazer pra matriz, etc. Me recuso à aceitar que The Office é um mundo só da televisão, que acaba quando ela desliga! Não, aquele escritório, a vida daquelas pessoas, não pára, ele continua. Acho que nenhum outro seriado americano de comédia tem essa força.

Mas o seriado, talvez por conta de ter vários roteiristas, em vários momentos esquizofrenicamente desliza. Às vezes sai dessa atmosfera pra entrar em uma mais tradicional, de universo hermético, artificial, não mais infinito, com os personagens falando com o propósito de fazer rir, com a graça deixando de ser “acidental”, onde eles tem a piada e a encaixam no timing certo, deixando de serem pessoas para serem comediantes. Aí parece que você tá assistindo Friends ou Two and a Half Man ou The Bing Bang Theory, onde você vê claramente a mão do roteirista encaminhando tudo, preparando lá atrás o que vai aparecer na frente. Você continua rindo, mas os personagens já perderam sua confiança. Eles, assim como o seu universo, também passam a ser meio que monocromáticos, unidirecionais, coisa que é mais próxima mesmo desse humor fácil das comédias mais tradicionais, onde você sabe exatamente as regras do jogo, os limites do mundo, o que o cada um dos personagens vai falar, o que vai fazer, a um kilômetro de distância. Eles ficam assim mais próximos da caricatura, uma coisa meio over. Acho que o House (pra tomar como exemplo um seriado que nem é de comédia e, pior, um seriado que eu nem assisto por conta de uma fobia a doenças que eu tenho) sofre um pouco disso. É sempre aquele cara durão, sem papas na língua, arrogante, o reverso do pieguismo...ok, beleza, mas quando uma garotinha a quem ele salvou a vida o abraça e chora agradecida e ele se comporta carrancudo, há pouco de tangível aí. No The Office, os roteiristas às vezes deixam a coisa cair pra esse lado, e eu fico puto com isso, porque foi exatamente por não ter tomado esse caminho que o seriado é tão poderoso, em vários sentidos.

A sexta temporada, com que eu estive preocupado depois da cagada que estavam sendo os rumos narrativos da quinta, seguiu muito bem. Os episódios estão distantes da criatividade e graça dos primeiros momentos da série, mas vê-se que os escritores manteram o pé-no-chão e a proposta que tiveram no começo. Espero que eles, junto com os mil elementos fantasticamente non-sense que são uma diversão só, mantenham a sofisticação responsável por apresentar um retrato sagaz dos EUA, do trabalho sob o capital e de tudo que é humano. E que, longe de introduzirem claques, eles mantenham a crueza, a “espontaneidade” e a verdade da parada.



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